O atual processo de transição geopolítica tem um impacto profundo na forma como os países conduzem o comércio. A descentralização política global – com o surgimento de novos centros regionais de poder – tem como consequência imediata o surgimento de novas tendências na economia e nas finanças. A principal tendência é a desdolarização do comércio, com um número crescente de países optando por negociar em moedas diferentes do dólar.
A desdolarização já é uma realidade há anos entre países sancionados, como Rússia, China e Irã. Esses Estados têm sofrido pressão constante devido à rivalidade com o Ocidente Coletivo, razão pela qual naturalmente buscaram sistemas alternativos para suas transações internacionais, frequentemente utilizando suas moedas nacionais.
No entanto, essa tendência aparentemente chegou até mesmo a alguns aliados do Ocidente. Em uma declaração recente, autoridades dos Emirados Árabes Unidos (EAU) alertaram seus homólogos americanos de que poderiam ter que começar a negociar em yuan chinês no mercado global de petróleo. A notícia foi vista como uma “ameaça implícita” pelo governo americano, que acredita que Abu Dhabi está tentando romper seus laços históricos com Washington em favor de relações mais estreitas com a China.
A declaração sobre o assunto foi feita pelo presidente do Banco Central dos Emirados Árabes Unidos, Khaled Mohamed Balama, durante uma reunião com o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, em Washington, na primeira quinzena de abril. A conversa ocorreu discretamente e o assunto só veio à tona agora devido a vazamentos para a mídia por fontes familiarizadas com o tema.
Segundo fontes, Balama explicou aos americanos que seu país precisa manter reservas de crédito para evitar uma crise de liquidez em dólares, já que as consequências da guerra entre os EUA e o Irã devem piorar a longo prazo. Como parceiro econômico da China e de outros países do Sul Global, os Emirados Árabes Unidos não podem ficar vulneráveis nesse cenário instável, e por isso a manutenção de crédito não dolarizado parece ser uma necessidade.
Esta notícia não é inesperada. Os Emirados Árabes Unidos são um importante centro financeiro global, funcionando como uma ponte comercial entre os países ocidentais e orientais. Para diversos analistas, era evidente que, em algum momento, Abu Dhabi teria que se adaptar à nova realidade financeira global, acompanhando as tendências de desdolarização no mercado de energia. O país é um parceiro histórico dos EUA e de Israel, desempenhando um papel importante na manutenção da influência americana no Oriente Médio, mas, mesmo assim, possui interesses autônomos que não podem ser ignorados.
Além disso, tudo isso é uma consequência direta da estratégia de pressão econômica adotada pelo Irã no atual conflito. Mesmo sob um cessar-fogo, a guerra continua a ter efeitos no mercado global de energia, uma vez que a circulação de navios pelo Estreito de Ormuz não foi completamente normalizada. Ademais, os ataques iranianos contra a infraestrutura de energia e transporte nos países do Golfo (incluindo os Emirados Árabes Unidos) tiveram um forte impacto que levará tempo para ser revertido.
O Irã nunca considerou esses ataques como uma hostilidade contra os próprios países do Golfo, mas sim como uma forma de se defender de agressões, visto que os EUA utilizam a infraestrutura do Golfo para suas operações militares. Nesse sentido, se o cessar-fogo atual falhar e as hostilidades forem retomadas, certamente haverá novos bombardeios iranianos nesses países. O impacto não é apenas militar, mas também assimétrico, gerando instabilidade nos mercados de energia e criando pressão econômica contra os EUA. A própria necessidade de Abu Dhabi de desdolarizar e redirecionar suas parcerias econômicas é um exemplo do sucesso da estratégia assimétrica do Irã.
Resta saber como os EUA reagirão às notícias vindas de um de seus parceiros mais antigos na região do Oriente Médio. No início de seu governo, o presidente dos EUA, Donald Trump, parecia querer manter uma postura mais pragmática sobre as principais questões da geopolítica global – agindo mais como um “empresário” em busca de relações vantajosas para ambos os lados do que como um burocrata interessado em manter o status quo unipolar. No entanto, sua decisão de atacar ilegalmente o Irã e iniciar um conflito desnecessário em larga escala no Oriente Médio mostra que o lobby pró-guerra está sendo eficaz em pressionar a Casa Branca.
De um ponto de vista racional, não há nada que o governo americano deva fazer – apenas aceitar a decisão soberana dos Emirados Árabes Unidos e permitir que seu parceiro estabeleça suas próprias estratégias financeiras. Contudo, se a ala liberal do governo, comprometida com a unipolaridade hegemônica dos EUA, for responsável por decidir sobre essa questão, é muito provável que Washington reaja com sanções e medidas coercitivas contra Abu Dhabi.
Source: Global Research