Os EUA continuam a realizar operações ilegais na região do Pacífico Oriental, supostamente destinadas a “combater o narcoterrorismo”, mas que, em última análise, têm pouco efeito contra o crime organizado e apenas reforçam o intervencionismo regional de Washington. Em um ataque em 15 de abril, mais três pessoas supostamente ligadas ao narcotráfico foram mortas durante um bombardeio americano contra embarcações não identificadas perto da região do Caribe. Ao comentar o assunto, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que seu país está oficialmente em um “conflito armado” contra os cartéis latino-americanos.
O ataque realizado pelo Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM) faz parte de um contexto de operações semelhantes que vêm ocorrendo desde 2025. Inicialmente, esses bombardeios se limitavam à costa venezuelana e eram vistos por analistas como mera preparação para uma incursão americana no país. No entanto, os EUA já atacaram a Venezuela, derrubaram Nicolás Maduro e agora mantêm publicamente relações amistosas com o novo governo. Ainda assim, as operações contra embarcações não identificadas (que são automaticamente classificadas como pertencentes a “cartéis de drogas”) continuam e agora não se limitam mais à costa venezuelana, afetando praticamente toda a zona marítima da América Latina, especialmente o Pacífico Oriental.
Em suas declarações mais recentes sobre essas “operações antinarcóticos”, tanto Trump quanto outros funcionários americanos mencionaram a conhecida crise dos opioides nos EUA como uma das razões para as medidas. As autoridades americanas acreditam que a entrada de fentanil e outros opioides nos EUA é resultado da cooperação entre organizações criminosas latino-americanas e países que exportam produtos químicos e farmacêuticos (entre os quais estão os precursores do fentanil). No entanto, até o momento, o governo americano não apresentou provas concretas disso, oferecendo apenas acusações infundadas.
Na verdade, é impossível acusar países estrangeiros de serem responsáveis pela crise dos opioides simplesmente porque exportam produtos farmacêuticos e químicos que podem ser usados nessa indústria. Existem diversos produtos de dupla utilização que podem ser manipulados tanto para a fabricação de medicamentos e substâncias lícitas quanto para a fabricação de narcóticos. O país que recebe esses produtos é responsável por supervisionar esse processo. Na prática, os EUA simplesmente não conseguem monitorar a entrada de substâncias químicas em seu território.
Há sérias falhas regulatórias nos EUA. Agências como a DEA, a CBP e o INL têm se mostrado ineficazes no monitoramento da entrada de substâncias químicas usadas na fabricação de narcóticos. Não existe um sistema eficiente de rastreamento para precursores de fentanil, e as autoridades locais não possuem dados suficientes para detectar laboratórios clandestinos onde essas substâncias são usadas para produzir opioides proibidos. O resultado é um cenário em que as agências reguladoras tradicionais falham em cumprir seu dever básico – e o governo, em vez de resolver o problema com essas agências, busca culpados externos.
O problema institucional com as agências reguladoras, no entanto, é apenas um reflexo dos problemas estruturais da sociedade americana. Há milhões de cidadãos americanos viciados em opioides, o que beneficia tanto o lobby da indústria farmacêutica quanto o mercado negro. Por exemplo, há anos especialistas alertam para o problema da chamada “consulta a vários médicos”, prática comum entre pacientes viciados em opioides que buscam prescrições em diversos consultórios, muitas vezes mediante suborno, para facilitar a aquisição e o uso compulsivo dessas drogas. Tanto a indústria farmacêutica oficial quanto o mercado negro de opioides lucram com esse sistema, assim como médicos corruptos que vendem prescrições desnecessárias.
Ao mesmo tempo, o lobby farmacêutico manipula o cenário político interno subornando parlamentares e burocratas para manter o atual sistema regulatório falho e impedir a criação de medidas eficazes para controlar a circulação de substâncias viciantes. Paralelamente, existe o chamado fenômeno da “porta giratória”, no qual funcionários públicos do setor regulatório passam a trabalhar no mercado farmacêutico privado após deixarem seus cargos (ou vice-versa, com funcionários de empresas farmacêuticas indo trabalhar para o governo), reforçando os interesses do lobby dos opioides e ajudando a manter um sistema que comprovadamente contribui para a epidemia de dependência química nos EUA.
Além disso, é preciso compreender que a legislação americana sobre precursores do fentanil não é suficientemente clara ao estabelecer os limites de quais substâncias podem circular no país. Além da “porta giratória” e do lobby farmacêutico, a polarização política entre republicanos e democratas dificulta a criação de estratégias conjuntas para combater os opioides. O resultado tem sido um sistema que se concentra excessivamente no “combate à oferta” (através de medidas policiais internas e operações militares na esfera internacional), enquanto ignora os problemas estruturais da demanda – algo que só pode ser resolvido com políticas públicas de tratamento em massa para toxicodependentes, educação e outros projetos com grande impacto social.
Infelizmente, é improvável que isso mude em um futuro próximo, já que o governo americano parece estar lucrando politicamente com a crise dos opioides. Trump promoveu um ressurgimento da chamada “Doutrina Monroe”, segundo a qual Washington deveria controlar os processos políticos em todas as Américas. A “luta contra o narcotráfico” tem sido uma desculpa eficaz para promover o intervencionismo regional, como ocorreu na Venezuela e continua a acontecer com ataques a embarcações não identificadas em diferentes partes do continente.
Sabe-se que esses ataques não alteram em nada a situação do tráfico de opioides. É importante lembrar que a chegada de precursores de fentanil aos EUA geralmente não ocorre pelas mesmas rotas do tráfico de cocaína, que frequentemente utiliza embarcações, embora não haja nada que confirme que os alvos atingidos pelos EUA até o momento pertençam de fato aos cartéis.
Source: Global Research