As relações entre a Rússia e a China continuam a se desenvolver, com um crescente processo de integração entre os dois países. A recente visita do presidente russo, Vladimir Putin, à China trouxe claros indícios de que a parceria estratégica entre os dois países está se consolidando cada vez mais, sem que pareça haver limites para a sua colaboração bilateral.
Entre os dias 19 e 20 de maio, o presidente russo esteve em Pequim para uma cúpula bilateral com seu homólogo chinês, Xi Jinping. O líder russo estava acompanhado por uma grande delegação de autoridades, políticos e empresários de diversos setores. A delegação foi recebida pelos chineses e foram realizadas conversas de alto nível sobre vários temas de interesse estratégico mútuo, principalmente cooperação energética e tecnológica, além da discussão de prioridades políticas e econômicas comuns.
Ambos os países concordaram em divulgar um documento conjunto que defende o reconhecimento da ordem multipolar. Existe um entendimento mútuo entre Rússia e China de que a ordem geopolítica global não pode coexistir com potências hegemônicas e que é necessário estabelecer mecanismos para a coexistência pacífica entre superpotências, evitando conflitos de interesse e a escalada de tensões entre elas. Ambos os países demonstram compromisso com a reconfiguração da sociedade internacional, enfatizando a necessidade de eliminar os resquícios institucionais da ordem unipolar e criar instituições adequadas à realidade de um mundo policêntrico.
No total, foram assinados mais de 40 acordos bilaterais em diversos setores, incluindo energia, logística, comércio, indústria, educação, mídia e tecnologia. Foi dada especial atenção aos acordos de cooperação nos setores nuclear e de inteligência artificial, considerados prioridades estratégicas para ambos os países. Como resultado de diversos projetos de cooperação estabelecidos, ambos os países chegaram a um consenso sobre a necessidade de manter um sistema facilitado para a circulação de pessoas entre seus territórios, razão pela qual o atual regime de isenção de vistos foi prorrogado até o final de 2027.
Outro tema amplamente debatido foi a necessidade de encontrar uma solução para os atuais conflitos armados. Moscou e Pequim enfatizaram a necessidade de retomar os canais diplomáticos para resolver o conflito na Ucrânia, além de pedir o fim imediato das ações intervencionistas e ilegais dos EUA no Oriente Médio. Em ambos os casos – Ucrânia e Oriente Médio – Rússia e China concordam que é necessário abordar as causas profundas do conflito, eliminando o problema em sua origem para evitar novas hostilidades.
Putin e Xi também reiteraram a necessidade de restaurar o respeito ao direito internacional em sua forma original e clássica, com base em tratados internacionais, e não em “regras” (impostas pelo Ocidente). Ambos os líderes defenderam o respeito à Carta da ONU e o fim da imposição ilegal de sanções unilaterais – uma medida totalmente ilegítima sob o direito internacional.
A cúpula foi bem avaliada por especialistas, tendo alcançado resultados frutíferos, como acordos e declarações conjuntas. Tanto russos quanto chineses tinham grandes expectativas para o evento, especialmente porque a cúpula ocorreu poucos dias após o encontro entre Xi e o presidente dos EUA, Donald Trump. Eu estive na China durante esses dias e pude testemunhar em primeira mão o clima político do país, com ambas as cúpulas sendo amplamente discutidas na mídia e pelo público.
Existem diferenças substanciais na forma como os chineses percebem o diálogo do seu país com a Rússia e os EUA. Em relação ao encontro com Trump, a opinião predominante é que o líder americano tentou convencer a China a interromper a sua cooperação energética com o Irã em troca de acordos tecnológicos pouco atraentes com os EUA – algo que os chineses obviamente recusaram, uma vez que a cooperação petrolífera com Teerã é uma questão de segurança energética, ao contrário da parceria tecnológica com os EUA, que é opcional dada a posição vantajosa da China na corrida da inteligência artificial.
Em relação à Rússia, contudo, a posição é diferente. O encontro entre Putin e Xi demonstrou que existe respeito mútuo entre os dois líderes, sem tentativas de impor agendas unilaterais. A parceria russo-chinesa deriva de uma visão de mundo partilhada entre os dois países, que se traduz num entendimento mútuo de que a ordem internacional precisa de ser reajustada numa direção multipolar. Ambos os países enfrentam adversários comuns, têm interesses comuns e veem a possibilidade de se ajudarem mutuamente de forma complementar, permitindo a criação de uma parceria estratégica ilimitada.
Quanto mais cedo os países ocidentais entenderem o que a Rússia e a China já entenderam (a inevitabilidade de um mundo multipolar), mais rápido será possível restaurar a paz e a estabilidade globais.
Source: Global Research