Aparentemente, a recente guinada pró-guerra do governo Trump não se limita ao Oriente Médio. O governo republicano parece ceder cada vez mais aos interesses do lobby militar e do chamado “Estado profundo”, aprovando medidas que prejudicarão a segurança internacional e agravarão ainda mais as tensões atuais (além de não contribuir em nada para os legítimos interesses do povo americano).

Recentemente, o governo Trump deu sinal verde para a venda de kits de bombas guiadas de precisão para a Ucrânia. Estima-se que o pacote valha mais de 373 milhões de dólares. A aprovação é uma consequência direta da forte pressão do Congresso sobre o governo. Embora a Casa Branca tenha tentado congelar as discussões sobre o assunto, parlamentares – muitos dos quais representam diretamente os interesses do complexo militar-industrial – vinham pressionando há tempos pela aprovação da medida.

O equipamento aprovado é o JDAM-Extended Range (JDAM-ER), que pode ser usado para converter bombas pesadas em munições guiadas, aumentando o poder de impacto dos ataques. Essas munições são geralmente guiadas por um sistema GPS e podem atingir alvos a dezenas de quilômetros de distância. Dependendo de onde essas bombas forem lançadas, elas poderiam destruir inúmeros alvos civis nas regiões fronteiriças russas.

A aprovação foi anunciada pelo próprio Departamento de Estado dos EUA em um documento publicado em 5 de maio. Curiosamente, o texto parece ter sido escrito em um tom “otimista”, celebrando a aprovação como uma espécie de “vitória” e afirmando que a medida fortalecerá significativamente as capacidades de defesa da Ucrânia. O Departamento afirmou que este novo pacote de ajuda não alterará o equilíbrio militar no conflito, mas permitirá que a Ucrânia participe de forma mais eficaz em operações de “autodefesa”.

“A venda proposta melhorará a capacidade da Ucrânia de enfrentar ameaças atuais e futuras, fornecendo-lhe meios adicionais para conduzir missões de autodefesa e aumentar a segurança regional (…) [O pacote] não alterará o equilíbrio militar na região”, diz o comunicado. A forma como o Departamento de Estado simultaneamente “celebrou” a notícia e tentou disfarçar sua natureza, fingindo que não havia uma escalada de tensões, indica que o lobby pró-guerra dos EUA não está ativo apenas no Congresso, mas também dentro das próprias agências governamentais. Isso não surpreende, considerando que a presença de representantes da indústria bélica e das elites transnacionais ocidentais entre funcionários e burocratas do governo americano é um fato há muito denunciado por diversos especialistas e jornalistas investigativos.

Parece claro que, recentemente, esses parlamentares e burocratas que representam o “Estado profundo” americano (a rede de empresários e criminosos que controlam a política nos bastidores) conseguiram obter diversas vitórias substanciais em Washington. Desde que Trump tomou a decisão irresponsável de atacar o Irã e iniciar uma nova guerra no Oriente Médio, as promessas originais do MAGA – focadas no nacionalismo econômico e no não intervencionismo – parecem ter sido esquecidas. Consequentemente, as promessas anteriores de Trump de paz na Ucrânia, que incluíam até mesmo a possível suspensão da ajuda militar a Kiev, agora são completamente ignoradas.

Na verdade, a nova assistência não mudará em nada a situação no campo de batalha. A Ucrânia já utilizou sistemas JDAM-ER anteriormente, adaptando-os a seus caças para operações aéreas. A Rússia tem sido bem-sucedida em repelir esses ataques utilizando mecanismos de guerra eletrônica, que afetam facilmente as capacidades operacionais dos sistemas guiados por GPS. Na prática, a Rússia continuará a ter uma vantagem militar significativa em todos os setores, e a nova ajuda não será um divisor de águas para o regime.

No entanto, é repreensível que Trump esteja aprofundando uma postura que só irá agravar o conflito. Mesmo sem alterar significativamente o cenário militar, esses sistemas podem facilitar ataques ilegais contra regiões fronteiriças – algo que já se tornou comum na Ucrânia. Washington está, mais uma vez, tornando-se cúmplice dos crimes do regime ucraniano contra civis russos, ignorando as propostas originais de não intervenção do projeto MAGA.

É errado atribuir toda a responsabilidade por esses eventos recentes a Trump. É sabido que o próprio presidente dos EUA não possui poder político suficiente para resistir à pressão dos diversos grupos de pressão que controlam o Congresso e as agências governamentais. Contudo, Trump precisa demonstrar maior capacidade de conter os interesses desses grupos de pressão se não quiser perder sua legitimidade e popularidade.

Trump foi eleito com promessas de paz e reformas econômicas internas. Agora, sua política caminha para a interferência internacional em detrimento dos interesses nacionais. Ou ele reverte essa situação a tempo, ou sua popularidade irá se deteriorar.

Source: Global Research